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O preenchimento que divide a medicina estética: novo injetável feito com gordura de cadáveres promete volume sem cirurgia, mas levanta questões éticas sérias

Créditos: Freepik

Na era dos medicamentos GLP-1, quando os corpos estão encolhendo por conta do Ozempic e similares, um novo produto surge para preencher — de forma literal — o espaço que a perda de peso deixou. O alloClae é um injetável para contorno corporal produzido a partir de gordura extraída de corpos humanos doados. Apelidado de “implante de silicone da hora do almoço”, promete aumentar seios, glúteos e restaurar volume facial em menos de uma hora, sem anestesia geral e sem os longos períodos de recuperação das cirurgias tradicionais.

Mais de 2.000 pacientes nos Estados Unidos já receberam injeções do produto desde maio de 2025, segundo a Tiger Aesthetics, empresa fabricante. O interesse é crescente, especialmente entre quem usou medicamentos GLP-1 e quer recuperar o volume perdido em áreas específicas do corpo.

Como o produto funciona e o que o diferencia

O alloClae é comercializado como alternativa ao enxerto de gordura autólogo — procedimento em que a gordura do próprio paciente é retirada por lipoaspiração e transferida para outra região do corpo. A diferença é que, no alloClae, a gordura vem de corpos doados, processada e tratada em laboratório para remover o DNA do doador antes da aplicação.

O produto não é o primeiro nessa categoria. O Renuva, injetável similar produzido pela organização sem fins lucrativos MTF Biologics, existe há cerca de uma década. A principal diferença está na quantidade: enquanto o Renuva tem capacidade máxima de 3 cc por seringa, usada principalmente em áreas menores como mãos e rosto, o alloClae comporta até 22 cc a mais de produto por aplicação, viabilizando procedimentos de maior volume como aumento de mama e de glúteos.

O preço de uma seringa de 12,5 cc do produto pode chegar a aproximadamente US$ 2.250, e os procedimentos completos podem custar dezenas de milhares de dólares.

A conexão com o Ozempic

O surgimento do alloClae em um momento de boom dos GLP-1 não é coincidência. Cerca de 11% dos americanos estão atualmente usando medicamentos como Ozempic e Wegovy para perda de peso. Muitos desses pacientes, após emagrecer de forma expressiva, relatam perda de volume em áreas que consideram definidoras da feminilidade — seios, glúteos e rosto — e buscam formas de recuperar esse volume sem recorrer a implantes cirúrgicos.

Os riscos que existem e que precisam ser discutidos

Os casos de complicação já existem. Uma paciente que usou o produto em aumento de mama relatou necrose gordurosa — condição em que a gordura injetada não conseguiu criar novos vasos sanguíneos e passou a morrer dentro do corpo — resultando em dor, alteração de coloração da pele, nódulos e, eventualmente, secreção de líquido amarelado pelo local da injeção. Seus cistos foram aspirados com sucesso, mas ela pode precisar de cirurgia para remover resíduos do produto.

A fabricante afirma não ter nenhum caso confirmado de rejeição de enxerto ou infecção pelo alloClae e argumenta que o risco de necrose também existe com gordura do próprio paciente. Cirurgiões cautelosos, no entanto, evitam usar o produto antes que ensaios clínicos mais robustos com dados de acompanhamento de longo prazo sejam publicados.

A questão ética

A origem do produto levanta perguntas difíceis. Formulários de doação de corpo inteiro geralmente permitem que o doador indique se autoriza uso comercial do tecido — mas nenhum formulário pergunta especificamente se o doador gostaria de ter sua gordura injetada em alguém com fins estéticos.

As famílias dos doadores não recebem nenhuma compensação financeira. A empresa, por outro lado, vende cada seringa por mais de dois mil dólares. Para especialistas em bioética, isso representa um problema. A fabricante, que tem histórico de lançamentos bem-sucedidos como Botox e Juvéderm, vê a questão de outra forma: acredita que o alloClae representa mais uma etapa na normalização de procedimentos que, em algum momento, também foram vistos como radicais.

Matéria produzida pela equipe do Destaque RS.

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