A ciência que pode mudar o tratamento da obesidade em idosos: pesquisa descobre como reativar a gordura que queima calorias e para de funcionar com a idade
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Enquanto o mundo debate o Ozempic e as canetas emagrecedoras, uma linha de pesquisa completamente diferente pode estar abrindo um novo caminho para o tratamento da obesidade em idosos. Em vez de reduzir a ingestão de calorias, como fazem os medicamentos GLP-1, a abordagem investigada por pesquisadores da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, faz o caminho inverso: aumentar o gasto de energia dentro do próprio tecido adiposo.
O estudo, publicado na revista científica Nature Communications, identificou o mecanismo responsável por um dos maiores enigmas da medicina moderna: por que perdemos a capacidade de queimar gordura conforme envelhecemos e, mais importante, como reverter esse processo.
Os três tipos de gordura que você provavelmente não conhece
Para entender a descoberta, é preciso primeiro conhecer os tipos de gordura que existem no corpo humano. A maioria das pessoas sabe da gordura branca, responsável por armazenar energia, e da gordura marrom, que queima energia para gerar calor e regular a temperatura corporal. Mas existe um terceiro tipo, descoberto apenas em 2008: a gordura bege.
Dispersa entre os depósitos de gordura branca, a gordura bege tem a capacidade de agir como a gordura marrom ou seja, queimar calorias para gerar calor, em vez de armazená-las. Ela também reduz o açúcar no sangue e decompõe os ácidos graxos que causam endurecimento das artérias e doenças cardíacas.
Em pessoas jovens, a exposição ao frio é suficiente para ativar a produção dessas células queimadoras de energia. Com o envelhecimento, essa capacidade desaparece progressivamente. O corpo vai perdendo a habilidade de formar gordura bege, favorecendo cada vez mais o acúmulo de gordura branca. É esse declínio metabólico que torna o controle de peso tão mais difícil com o avançar da idade.
O freio molecular que bloqueia a queima de gordura
Os pesquisadores identificaram a razão para esse declínio: com o envelhecimento, células especiais localizadas ao redor dos vasos sanguíneos passam a produzir excesso de uma proteína chamada Pdgfrβ. Essa proteína funciona como um freio molecular que bloqueia a transformação de células progenitoras em gordura bege.
Em outras palavras, o corpo não para de queimar gordura porque quer. Ele para porque uma proteína específica impede que as células certas se formem. E esse mecanismo, uma vez identificado, torna-se um alvo farmacológico.
O que aconteceu nos experimentos com ratos
Os pesquisadores usaram dois medicamentos já existentes o imatinib, aprovado para o tratamento de leucemia, e o composto experimental SU16f para bloquear a ação da proteína Pdgfrβ em ratos idosos durante cinco dias. Em seguida, os animais foram expostos ao frio por uma semana.
O resultado foi surpreendente: os ratos idosos recuperaram a capacidade de formar gordura bege, uma função que haviam perdido naturalmente com o envelhecimento. Em termos práticos, os animais velhos voltaram a queimar energia como animais jovens.
O mecanismo funciona por uma cascata molecular: o bloqueio da Pdgfrβ aumenta a produção de uma substância chamada IL-33, que ativa células imunológicas específicas. Essas células, por sua vez, estimulam a transformação das células progenitoras nas chamadas “fornalhas celulares” as células de gordura bege que queimam energia.
A relação com o Ozempic e o potencial combinado
Embora a pesquisa aponte em uma direção oposta à das canetas emagrecedoras, as duas abordagens não são excludentes. Os medicamentos GLP-1, como o Ozempic e o Wegovy, atuam reduzindo a entrada de calorias no organismo, por meio da supressão do apetite. A reativação da gordura bege atua aumentando a saída de energia.
Combinadas, as duas estratégias criariam um déficit calórico duplo no organismo reduzindo a ingestão e aumentando o gasto ao mesmo tempo. Especialistas avaliam que essa combinação pode ser especialmente relevante para idosos, população em que os GLP-1 costumam ser usados com mais cautela por causa do risco de perda de massa muscular.
O que falta para chegar ao mercado
Os experimentos foram realizados em ratos, e a pesquisa ainda está em fase pré-clínica. O caminho até um medicamento aprovado para humanos é longo e envolve estudos de segurança, ensaios clínicos e aprovação regulatória. No entanto, a identificação de um alvo molecular específico e a existência de medicamentos já aprovados que atuam sobre ele aceleram esse percurso em relação a descobertas que partem do zero.
Para a pesquisadora responsável pelo estudo, a pergunta central era simples: sem expor as pessoas ao frio por períodos prolongados, existem vias metabólicas que podem ser estimuladas para produzir o mesmo efeito termogênico? A resposta encontrada aponta que sim e abre uma perspectiva nova para o tratamento da obesidade em populações que mais precisam de alternativas.
Matéria produzida pela equipe do Destaque RS.



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